A minha vida num disco: Bruno Sugere

É desde Londres, onde mora, que Bruno Sugere apoia a música e underground nacional. Melómano convicto, Bruno não deixa escapar uma oportunidade de partilhar nas suas redes sociais tudo o que se passa em Portugal, desde novos lançamentos, novas bandas, reedições, e muito muito mais. A todos nós cabe agradecer, e muito, todo o seu apoio!

E hoje a escolha do disco é dele.

A minha vida num disco: Bruno Sugere

Em primeiro lugar, quero agradecer imenso o teu convite, e deixa-me dizer-te que esta foi das questões mais difíceis que alguma vez me colocaram, sendo eu o amante confesso por música que sou. Demorou-me um dia inteiro para fazer a triagem. Isto, porque nunca tive preferência por um só género ou estilo musicais, e as possibilidades de resposta eram ínfimas, indo desde o single do ‘Chico Fininho’ de Rui Veloso que me foi oferecido quando tinha cinco/seis anos, passando por qualquer LP dos Beatles, o ‘Master of Puppets’ de Metallica (o primeiro álbum pesado que ouvi), o ‘Nevermind’ e o ‘In Utero’ de Nirvana, o ‘Ten’ de Pearl Jam, escolhido pelo grande Ricardo Agostinho, e o ‘Vs.’ também, os dois primeiros de Rage Against the Machine, o ‘Urban Discipline’ e o ‘State of the World Address’ de Biohazard, o álbum homónimo de Downset, o ‘Ænima’ de TOOL, o ‘Get Some’ de Snot, o ‘The Shape of Punk to Come’ de Refused, o ‘Relationship of Command’ de At the Drive-In, o ‘Jane Doe’ de Converge, e ficam muitos mais por referir, embora estes fossem os potenciais ‘contenders’. No entanto, para além de qualquer um destes discos, houve um que me marcou muito mais, e não só a mim, a toda a minha geração de amigos de Queluz e arredores (onde morei até aos 18) durante os 90’s. Esse disco é o ‘Harmony as One’ de X-Acto, e penso que muitos deles, tal como eu, ainda se recordam da seca de dez minutos no final, dada pelo mano Pedro acerca do Veganismo.

Como o Cláudio, irmão do falecido Rodrigo Barradas (vocalista de X-Acto/Sannyasin), era o meu melhor amigo e estávamos sempre em casa um do outro, tive a oportunidade de o escutar na íntegra antes de muita gente. Ainda me recordo do alinhamento original incluir dois temas que foram retirados da edição final para mais tarde serem incluídos num ‘7’ Split’ que saiu pouco tempo antes da banda acabar, o qual coincidiu com a minha mudança para Setúbal. Para além disso, eu e o Cláudio tínhamos um projeto, os Bloqueio, ou One Must Hope após a minha saída, (que incluía o André Henriques e o Sérgio Lemos de Linda Martini na formação), e por causa de ensaiarmos numa garagem no Monte Abraão, (a qual pertencia ao segundo vocalista de Twenty Inch Burial, o Ricardo Moreira ‘Barril’), e esta ficar a quinze minutos a pé da garagem do Sega (Paulo Segadães) onde X-Acto ensaiava, era habitual terminarmos o nosso ensaio mais cedo para podermos ainda ver parte do deles. Altos groupies, admito, ou melhor, altos colas, embora não fossemos os únicos.

Neste disco encontra-se muita coisa que resume o que fui na minha adolescência, como o Straight-Edge, o Veganismo nunca autorizado pelos meus Pais (por questões económicas, pois era caro na altura), o punk/hardcore e a roupa XXL associada ao movimento, bem como a base de muitos valores que ainda mantenho, como o respeito por todas as opiniões que não anulem as restantes, a anti-violência, o anti-fascismo, o anti-racismo e a anti-xenofobia, a ecologia e o respeito pelos animais, e as minha primeiras noções sobre a sociedade machista em que vivemos, que embora tenha melhorado um pouco, ainda se encontra longe de justa e igualitária em relação a todos os sexos e/ou escolhas sexuais.

O ‘Harmony as One’, mais do que o ‘Chico Fininho’ na minha infância, foi garantidamente, o meu primeiro grande amor pela música nacional, e o Rodrigo o meu primeiro ‘ídolo’ musical português por consequência, (e ainda o são no fundo, e creio que para o resto da minha vida). A sua marca em mim foi tal, que cada vez que o escuto, se não tiver um espelho à frente, viajo automaticamente no tempo e volto a ter 16 anos, coisa que já não me acontece tanto com certos álbuns que amadureceram comigo, como quase todos os que acima referi.

Curiosamente, embora tivesse sempre uma cópia emprestada por casa, nunca tive a oportunidade de o adquirir na altura, e só há uns anos atrás consegui finalmente, comprar um CD ainda selado através de uma loja online francesa, o qual ainda não tive coragem de desplastificar.

Para finalizar, espero um dia, que os manos (X-Acto/Sannyasin) cedam a uma reedição em vinil, (o meu formato de eleição), mas creio que remexer no passado encontra-se fora dos seus interesses, segundo algumas pessoas que os abordaram me contaram. Contudo, deixo aqui a sugestão uma vez mais, no caso de algum deles ler isto, pois a esperança é a última a morrer, e no fundo, foram eles próprios que mo ensinaram através deste álbum e da sua música, assim como a nunca deixar de acreditar nos meus sonhos, sendo este um dos que ainda mantenho no topo da lista.



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