A minha vida num disco: Bruno Sobral aka Tsunamiz

Tsunamiz é Bruno Sobral. Tsunamiz é música sem barreiras, desde o rock e punk alternativos à eletrónica. Podem ficar a conhecer melhor o músico e produtor nesta entrevista.

Vamos descobrir qual o disco da sua vida.

A minha vida num disco: Bruno Sobral aka Tsunamiz

Segundo Nietzsche, a estética não passa de uma fisiologia aplicada, e nesse sentido podemos dizer que a estética dos Nirvana me é apelativa, até porque, no fim de contas, todos nós ouvimos apenas a música que a nossa mente e corpo apreciam.
O Nevermind não é o melhor álbum de todos os tempos, e para alguns, nem sequer é o melhor álbum de Nirvana, mas é sem dúvida um dos mais importantes da história da música. É, em primeiro lugar, a epítome daquilo que deve ser um bom álbum de rock alternativo.
É um álbum muito bem produzido, e segundo os próprios Nirvana, até bem produzido demais. A mistura e a produção estiveram a cargo de Butch Vig (anos antes de nos presentear com os seus killer pop Garbage), mas ao que tudo indica, o brilho e o tratamento finais foram dados por Andy Wallace com o seu estilo “big sound” e até com samples de tarolas à mistura.
O disco tem canções orelhudas e simples mas nunca com melodias fáceis (estou a olhar para vocês, emos), até porque a música é uma linguagem que comunica emoções e há quem as comunique como uma criança de dois anos, ou seja, com uma elementaridade penosa. Simplicidade não significa vulgaridade.
A seleção de temas e a ordem dos mesmos em Nevermind, mostra-nos também um catálogo de músicas diferentes entre si com uma identidade muito própria, unidas mais pela produção do que pelos ritmos ou melodias.
Neste álbum ouvimos influências de Pixies, Sex Pistols, Wipers, Rolling Stones (na fase Brian Jones), Beatles, entre outros, tudo misturado em acordes simples, baterias potentes, baixos com muito groove e melodias vocais que parecem deitar cá para fora toda a dor e angústias duma geração inteira.
Sim, os Nirvana não trouxeram nada de novo mas trouxeram algo de que todo o mundo precisava na altura certa. Até na escolha dos singles houve uma precisão e acerto fantásticos, o que nos faz chegar a…. Smells Like Teen Spirit! Provavelmente a música mais emblemática dos anos 90, e, a meu ver, uma das melhores canções de sempre. Sim, o Kurt não gostava de a tocar ao vivo, mas só depois da mesma ficar popular, quando parecia que o público só queria ouvir esse tema. Lembra-me o que passaram os Doors com o sucesso de Light My Fire…
Numa altura em que a MTV passava música (sim, eu sei que custa a acreditar) e em que era um dos principais canais de divulgação mundial para bandas e artistas, Smells Like Teen Spirit passou a estar em alta rotação.
Quando, no final de 1991, Nevermind, contra todas as expectativas, destronou o álbum Dangerous do Michael Jackson da primeira posição da Billboard com músicas verdadeiramente perigosas, nasceu uma nova era.
De repente, abriu-se um portal inter-dimensional que colocou os olhos de todo o mundo numa cena underground, indie e alternativa muito mais autêntica do que aquilo que se consumia no mainstream. Deu a conhecer toda a cena de Seattle (mais heterogénea do que o termo grunge deixaria adivinhar) e introduziu novas gerações de ouvintes a bandas já consagradas em alguns círculos mais alternativos mas desconhecidas das grandes massas como os Sonic Youth, Butthole Surfers, The Vaselines, etc.
Quando penso numa analogia para um efeito e transformação semelhantes na cultura popular, ocorre-me sempre o filme Pulp Fiction do Tarantino, que tal como Nevermind na música, mudou para sempre a história do cinema com o seu sucesso abrindo a porta a uma nova vaga de realizadores.
Os anos 90, globalmente, foram uma década em que o entretenimento e a cultura pop (refiro-me ao mainstream) se tornaram mais reais, crús e violentos, principalmente com a ascensão do grunge e do hip-hop na música e a afirmação, no cinema, de realizadores como o Tarantino, Rodriguez, entre outros.
Há, sem dúvida, álbuns mais sofisticados nos anos 90, como por exemplo, o Ok Computer dos Radiohead, que também estimo imenso, mas este foi aquele que mudou, não só o curso da história da música mas também o da minha vida.
Sem este álbum provavelmente não me teria dedicado à música, nem teria sido recrutado de bom grado para a contracultura, mil vezes mais profunda e sincera nas suas manifestações e criações artísticas do que a cultura dominante. Apesar do meu gosto musical, com o passar dos anos, ter evoluído e se ter expandido, terei sempre um espaço especial no meu coração para este álbum e esta banda que me marcaram e influenciaram profundamente.

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