A minha vida num disco: Bruno Miguel (:papercutz)

O produtor e músico Bruno Miguel (:papercutz) aceitou o nosso desafio para participar na rubrica A Minha Vida Num Disco.

À LOOK mag, Bruno refere que «acabei por fazer do artigo em resposta ao vosso convite algo ainda maior, dentro de uma história que percorre algum do passado da música nacional com a ajuda de diversos intervenientes», reforçando que «esta era uma história que estava à espera de poder contar».

Nuno Canavarro – Plux Quba (Música para 70 serpentes)

Ouvir (escolha):
Nuno Canavarro – Untitled 8

Um título como este desperta reflexão. Existem alternativas numa resposta a esta nada simples afirmação. A mais óbvia seria uma obra esteticamente fundamental no meu percurso mas a verdade é que não existe uma resposta única, ou então, uma que desperte a nostalgia dos primeiros grandes encontros com autores de uma linguagem própria, no entanto, como um fator distintivo de outras vezes que me fizeram uma questão semelhante, faço o exercício de falar de um disco que alberga ambos os casos, e que tem sido recorrente em diversas audições e conversas, dos Estados Unidos ao Japão, o trabalho de um artista nacional que se mantêm ainda como um acto de descoberta e compreensão. Uma escolha, penso eu, com uma interessante história pessoal por detrás, como se poderá perceber nas palavras seguintes.

Em 2008 é lançado o álbum de estreia de :PAPERCUTZ de nome Lylac, um trabalho de uma eletrônica de micro-sons gravados e processados aliados na escrita de canções. Aquando da sua venda na loja Matéria Prima no Porto, o seu responsável, Paulo Vinhas, uma pessoa que muito admiro e honestamente não sei se alguma vez o confrontei com tal, mencionou que alguma da sua sonoridade lhe fazia lembrar o trabalho de Nuno Canavarro. Uma vez chegado a casa, procurei esse elusivo compositor e claro, tudo fez sentido, realmente tínhamos imensos elementos em comum na altura, uma eletrónica glitch com manipulação de instrumentos acústicos de dimensão reduzida como Xylophones e Melódicas, sonoridades cuja inocência desperta vidas passadas, além de field recordings (na altura gravei o ‘barulho’ de uma rua do Porto ao anoitecer) e de texturas de diversos timbres por sintetizadores FM, uma espécie de laboratório de quarto. Evidentemente não tinha sido de todo assim tão distinto como ambicionava, apesar de no meu caso, os instrumentais servissem temas muitas vezes cantados mas fiquei com a impressão que o Nuno já sabia tudo isto e muito mais. Aliás não foi surpresa descobrir a relevância que o seu trabalho teve noutros artistas numa dimensão internacional com diversas reedições do seu álbum, inicialmente lançado selo Português Ama Romanta, e mais tarde pelas mãos de Jim O’Rourke e a sua editora Mokai, e cuja influência poderá ser relacionada com trabalhos de artistas como Tortoise, Aphex Twin, Mouse On Mars, Oneohtrix Point Never ou Visible Cloaks (mais sobre este caso em particular a seguir) apesar de nunca ter deixado de imaginar o Nuno a trabalhar nos seus temas com uma ambição de querer agradar apesar de tudo o seu intelecto. Algo que me revejo. Aliás, mais que tudo, o seu trabalho acaba não por ser apenas relevante para o mundo exterior mas também para os seus conterrâneos. Nas palavras de Pessoa “O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito..” e penso, estou a assumir admito, que Canavarro se revê nestas palavras e daí as suas poucas edições discográficas. É o resultado de alguém cuja formação em Arquitetura planeia minuciosamente a sua música e o seu papel de experimentalista ao ponto de incluir formas de audição nas notas de rodapé de Plux Quba (Música para 70 serpentes):

Este disco deve ser ouvido:
1 – Com as colunas / monitores o mais possível afastadas entre si
2- A baixo nível 1-5 [Wask + Lado 2]

Voltei a encontrar-me com a música de Canavaro na descoberta de ‘fourth-world music’, um género edificado pelas mãos de Bill Laswell e Brian Eno, aliás grande influência para o Nuno e em parte explica a sua parceria com Carlos Maria Trindade que mencionou o ter sido um “disco de trabalho” algo que pessoalmente já fui confrontado com mas não vejo como essa perspectiva não sirva que não mais um importante resultado. E uma vez mais mostrava uma ligação com ‘Mr. Wollogallu‘ a um movimento atual e fora de portas. Tudo isto me coloca numa posição de perceber o quanto é possível neste pequeno canto da Europa estar associado a diversas derivações musicais, fenómenos que também aconteciam na nossa vizinha Espanha, com edições como “Música esporádica” de Pedro Estevan ao mesmo tempo em geografias bem longínquas com nomes como Japonês Hiroshi Yoshimura. Tal como o desenho de um círculo perfeito, na altura estar a par de todos estes eventos não seria de todo uma fácil execução e requer destreza e objectividade. E sim, trabalho. Acontece precisamente numa conversa na pequena cidade de Matsumoto em terras Nipónicas, que volto a abordar Plux Quba com um local, colecionador do seu álbum em causa, detentor da edição do álbum pela oriental Inpartmaint Inc. e que tinha vindo ao concerto da digressão de :PPCTZ. Este ficou muito surpreendido, apesar do contexto experimental da obra de Canavarro, o compositor ser praticamente um desconhecido em Portugal. Anteriormente algo semelhante aconteceu comigo em Nova Iorque, na agora encerrada Other Music, com um dos donos quando procurei adquirir, sem sucesso, a re-edição esgotada pela editora Americana Drag City, e numa digressão Europeia em Toulouse (França) com um promotor de um concerto. Mas a mais importante acaba por ser com Spencer Doran do projeto Visible Cloaks, com quem partilho um gosto por música ambiental e new age, e comentou se tratar de um enorme admirador da obra alargada de Canavarro, tendo me pedido para saber as origens de uma descrição que tinha descoberto num vídeo da editora original Ama Romanta, cujo movimento nacional em si que não é do meu tempo, daria para muitas mais palavras. Além de tudo o Spencer é responsável por um dos projectos mais interessantes actuais, tendo conseguido criar no seu trabalho uma ponte entre géneros e autores já mencionados e uma linguagem electrónica actual. O seu interesse pelo Nuno estende-se até à sua extensão como compositor para cinema com Fernando Vendrell. O Spencer comentou o seguinte comigo:

“Plux Quba especially feels like something that dropped off of an alien planet, with it’s music language totally separate and beautifully inscrutable.”

e que já tinha feito no passado contacto com Tozé Ferreira e o próprio Fernando Vendrell para perceber melhor a forma de trabalhar do Nuno. Isto porque Canavarro mantêm-se um artista isolado e de muito difícil acesso sendo que tudo se apresentou como um enorme desafio, percorrer precisamente o lado menos presente, a sua cobertura mediática, muita na altura dos anos 80 por jornalistas como falecido Fernando Magalhães para o Blitz ou Público (felizmente recuperados numa excelente edição por Luís Jerónimo) e mais recentemente Rui Miguel Abreu. Dei por mim a deslizar pelos diversos ramos de uma longa árvore genealógica da música experimental nacional chegando a colaboradores mais recentes de Canavarro como Victor Joaquim, e finalmente descobrindo o jornalista do artigo da Blitz original, João Lisboa. Tudo isto até que finalmente consigo um contacto do Nuno e posso falar com ele e contar toda esta história!

Vivemos num mundo de exposição social, um ciclo de 24 Horas, e nem todos cuja carreira chegou aos diversos cantos deste pequeno grande mundo, conseguiram manter-se fechados no seu espaço, definindo a sua forma de se mostrar, e poder falar com ele foi algo de uma surpresa inesperada e que nada decresce de todo o mistério à sua volta. Ele comentou que nunca deixou de trabalhar em música e que não seria impossível, e espero que não se importe com passar tal mensagem, vir a lançar um novo trabalho. No entanto, nada retira a sua influência até ao momento. Tal como o artigo refere “reverberações de um universo doméstico e privado que só relutantemente se dão a conhecer” sendo que penso muito que o seu trabalho é mais que isso, é na realidade um eco pois retorna no trabalho de outros, por agora, e quem sabe por muitos mais e bem vindos anos.

You May Also Like

À conversa com Diogo Rico aka Churky

Rock & Roll Hall of Fame: quem são os novos nomes indicados? Nós revelamos

King Gizzard & The Lizard Wizard anunciam novo álbum

Museu Bob Dylan será inaugurado em 2022

error: Conteúdo protegido. Partilhe e divulgue o link com o crédito @lookmag.pt